terça-feira, 2 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

Carta de Nichiren Shonin: Um Pai Toma Fé



Um Pai Toma Fé

Como não tinha ouvido de você por um longo tempo, estava sentindo-me um tanto ansioso. Mas nada poderia ser mais maravilhoso do que esta questão de Tayu-no-sakan e você. É de fato maravilhoso!

É o modo usual das coisas que, quando a última era inicia, sábios e homens dignos todos desaparecem, e apenas caluniadores, bajuladores, traidores sorridentes e aqueles de princípios distorcidos enchem a terra.

Assim lemos nos sutras. Para ilustrar, conforme a água seca (com peixes dentro dela), a lagoa será perturbada, e quando o vento soprar, o mar não permanecerá calmo. Nós também lemos que, na última era, porque secas, epidemias e grandes chuvas e ventos chegam em sucessão, mesmo os de coração grande tornam-se estreitos, e mesmo aqueles que buscam o Caminho caem em visões errôneas. Este sendo o caso, os sutras nos dizem, pai e mãe, marido e mulher, e irmão mais velho e irmão mais jovem se confrontarão um com o outro, como um caçador e um veado, um gato e um rato, ou um falcão e um faisão – para não dizer nada das brigas entre estranhos. Ryokan e outros sacerdotes, inspirados por demônios, enganaram  seu pai Saemon-no-tayu e tentaram destruir vocês dois, mas você mesmo provou ser sábio e atendeu minha admoestação. Portanto, assim como duas rodas suportam um carro ou duas pernas carregam uma pessoa, como duas asas capacitam um pássaro a voar,  ou como o sol e a lua auxiliam todos os seres vivos, os esforços de vocês dois irmãos levaram seu pai a tomar fé no Sutra de Lótus. É somente por sua causa, Hyoe-no-sakan, que as coisas resultaram desta forma.

De acordo com os ensinamentos do verdadeiro sutra, quando o mundo entrar nos últimos dias e o Budismo cair em completa desordem, um grande sábio irá aparecer no mundo. Por exemplo, o pinheiro, que suporta a geada, é chamado de o monarca das árvores e o crisântemo, que continua a florescer após outras plantas terem murchado, é conhecido como uma planta sagrada. Quando o mundo está em paz, homens dignos não se tornam aparentes, mas quando a era está em crise, ambos, sábios e tolos são revelados pelo que eles são. Quão lamentável que Hei no Saemon e o lorde de Sagami falharam em me escutar, Nichiren! Se eles o fizessem, certamente não teriam decapitado os enviados da nação Mongol que chegaram antes do ano passado. Sem dúvida eles lamentam isso agora.

O octagésimo-primeiro soberano, o grande governante conhecido como Imperador Antoku, comissionou varias centenas de professores Shingon, incluindo o sacerdote chefe da Tendai, Myoun, para oferecer orações numa tentativa de  subjugar Minamoto no Yorimoto, o general da direita. Mas suas maldições “retornaram a seus originadores”, conforme o sutra diz. Myoun foi decapitado por Yoshinaka, e o Imperador Antoku foi afogado no mar ocidental. O octagésimo-segundo, octagésimo- terceiro e octagésimo-quarto soberanos, o tonsurado Imperador Aposentado de Oki, o Imperador Aposentado de Awa e o Imperador Aposentado de Sado, bem como o imperador reinante – estes quatro governantes fizeram o sacerdote chefe e Administrador de Monges Jien, da Tendai, bem como mais de quarenta outros eminentes monges, incluindo o Omuro e outros de Mii-dera, oferecerem orações para subjugar o general Taira, Yoshitoki. Mas novamente, as maldições “retornaram a seus originadores”, e estes quatro governantes foram banidos para ilhas remotas.

No que concerne a este grande ensinamento maligno (da Shingon): Os três Grandes Professores – Kobo, Jikaku e Chisho – repudiaram as palavras douradas de Sakyamuni, que designam o Sutra de Lótus como supremo, interpretando-as para significar que o Sutra de Lótus situa-se em segundo ou terceiro e que o Sutra Dainiti é o mais elevado. Porque os acima mencionados imperadores colocaram sua confiança nestas visões distorcidas, eles destruíram ambos, a nação e a si mesmos nesta vida, e caíram no inferno de incessante sofrimento na próxima.

Este próximo ritual especial de oração será o terceiro. Entre meus discípulos, aqueles que faleceram estão provavelmente agora observando isto com o olho de Buda. E vocês que foram poupados, observem com seus olhos mortais! O governante e outros oficiais de alto escalão serão carregados para um país estrangeiro, e aquelas pessoas que conduziram o ritual de oração morrerão insanas, ou fugirão para outras províncias, ou esconder-se-ão nas montanhas e florestas. O mensageiro do Lorde Buda Sakyamuni foi feito desfilar duas vezes pelas ruas, e seus discípulos têm sido lançados às prisões, mortos, feridos ou expulsos das províncias onde estavam vivendo. Portanto, a culpa destes ofensores será certamente entendida a cada habitante daquelas províncias. Por exemplo, muitos serão afligidos com lepra branca, lepra negra ou toda maneira de outras doenças terrivelmente graves. Meus discípulos deveriam entender esta questão completamente.

Com meu profundo respeito,

Nichiren
O nono dia do nono mês

Esta carta é especificamente designada para Hyoe-no-Sakan. Ela também deveria ser mostrada a todos meus discípulos em geral. Não revele o seu conteúdo para outros.


(Tradução livre de Marcos Silva)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Significado Transcendental de Odaimoku


Os budistas da Nichiren Shu aprendem e praticam uma atividade muito simples, mas que representa um tesouro de benevolência sem igual para a humanidade. Aqui, nós recitamos Odaimoku (Grande Título do Sutra do Lótus) ou "Namu Myoho Rengue Kyo" diariamente. Esta prática visa levar a vida do praticante a fundir-se com a vida universal cósmica, ou a Budeidade inerente em todas as coisas, a consciência cósmica, enfim, que no Budismo é desenvolvida como a Teoria de Itinen Sanzen (3 Mil Mundos em um Único Instante da Vida).

O Sutra de Lótus, ensinado pelo Buda Sakyamuni nos últimos 8 anos de sua existência neste plano material, revela em suas profundezas esta sofisticada teoria iluminadora, que foi posteriormente desenvolvida por sábios no Oriente e derradeiramente, cristalizada pelo Mestre Nichiren Shonin (reencarnação do Bodhisatva Jogyo) na forma sonora de Namu Myoho Rengue Kyo. Ou seja, este supremo mantra é em si a Suprema Realidade, o Buda Original e Eterno do Tempo Sem Início. Todas as essências da condição iluminada de Buda (todos os Budas, Bodhisatvas e Sábios do Universo), baseadas na Lei Cósmica de tudo que existe no Universo e para além deste, estão "embutidas" neste mantra de imenso poder. O mantra, em certo sentido, é o Buda.

Assim, ao recitar ou cantar esta jóia universal, Namu Myoho Rengue Kyo, com toda a energia de nosso ser, procurando despertar a fé, a nossa essência mais profunda, ou nossa própria natureza iluminada (natureza búdica) começa a manifestar-se e fundir-se com a natureza Búdica do Universo. Buda em si atingiu reinos para muito além da mente, e sua iluminação inigualável está "encapsulada" nesta fórmula, totalmente adequada para a era atual, os últimos dias da lei budista. Ao sintonizar com esta Grande Iluminação inerente à Vida do Universo, o devoto de Buda começa a situar-se em um novo plano de existência, e começa a receber as recompensas de seu despertar ou elevação. Recebemos então recompensas como sabedoria aumentada, maior compaixão pelos seres sencientes, proteção, poderes sobrenaturais, maior energia vital e saúde, e iluminação. Por vezes, o devoto da Lei surpreende-se com os efeitos do poder desta prática.


É um tanto difícil fazer compreender esta realidade através de palavras, assim como é difícil transmitir o sabor de uma laranja a alguém que nunca tenha provado esta fruta. A melhor maneira de perceber esta realidade e descobrir se, ou não, esta prática está destinada a ser praticada pela pessoa, é começar a recitar o mantra sagrado por algum tempo, todos os dias, por uma semana pelo menos. Fazendo isto, mesmo os de percepção mais lenta descobrirão por si mesmos, rapidamente, o poder da prática budista.

Não obstante, tentaremos analisar brevemente os caracteres do mantra sagrado, para que o leitor possa apreciar os significados.


“Namu: 南無” é trazido do idioma Sânscrito "Namah" que significa algo como "Devoção", ou sentimento de adoração à Realidade Última da Vida e da Morte. Namah foi transformado em dois caracteres Kanji “Na: ” e “Mu: ”cuja pronúncia é bastante antiga, embora primordialmente, seus significados fossem bastante diversos. Nos tempos antigos, seu significado era “Sul: ” e “Nada: ”. Atualmente, não são pronunciados de maneira separada, mas sim juntos. Ou seja, "Namu", duas palavras como se fosse uma palavra, que representa "Devoção". Minha humilde opinião é de que esta palavra implica um profundo 'segredo' para a mais rápida realização do Estado de Iluminação. Ou seja, amor e devoção à Buda (O Supremo).


“Myo: ” Este caracter possui, muito resumidamente, dois significados fundamentais. "Função maravilhosa extremamente microscópica para poder ser discernida" e "Circunstância Misteriosa". O caracter "Myo" deriva também do Sânscrito "Sat" e possui o significado de "Correção, virtude e verdade". Ao associar-se à próxima palavra do mantra, "Ho" (Dharma), ele torna-se Sat-Dharma, ou "Saddharma". Desta maneira, o caracter "Myo" nos revela um profundo significado, que é: "Abrir todos os misteriosos portais no universo e despertar poder oculto, desenvolvimento, e ressuscitar a vida". Podemos compreender então, que estes ensinamentos do Sutra de Lótus possuem poderes misteriosos e maravilhosos, para fazer brotar vida onde antes havia apenas deserto, fazer crescer e regenerar todas as coisas, como o poder do sol. Nichiren Shonin afirmou em suas cartas que "Myo é ressuscitar a vida".


“Ho: ” nos dias atuais possui o significado de "regra, ou preceito". Também “Ho” teve sua origem em outro caracter do Sânscrito, "Dharma", que possui o significado de "lei ou dever". Ao ser empregado num enfoque Budista, passa a ter um significado único, que implica em "uma maravilhosa provisão na natureza e verdades permanentes" ou então, "Lei Universal"  e, igualmente, implica no ensinamento de Buda. Esta "Lei Universal" é a suprema realidade do universo, um conceito aproximado do que outras religiões chamam de Deus. A diferença é que, se Deus é onipresente, então necessariamente deve estar contido em cada átomo bem como nas maiores estrelas e no coração do homem. Ou seja, um conceito dificilmente antropomórfico de um Ser separado, de barba e feições iguais às nossas. A suprema e divina verdade cósmica, a  "Lei Universal", foi revelada nos meandros do Sutra de Lótus. Esta Lei Universal abrange todas as leis, sejam elas da astronomia, da biologia, da mente, da vida e também da morte. Ela existe na menor partícula de poeira e faz mover os astros em seus destinos. Interessantemente, os antigos ensinamentos do Hinduísmo e Budismo possuíam conceitos de universo muito sofisticados. Alguns Budas (sim, há muitos deles:-) e Bodhissatvas eram capazes de, com seus talentos aguçados, viajar para outros planetas espirituais ou assim nos é relatado nos sutras, que podem ser entendidos metaforicamente como também literalmente, em algum nível de realidade.

 Destarte,  “Myoho: 妙法” possui um significado literal de "O ensinamento eterno para abrir todos os portais misteriosos, despertar poder oculto, desenvolver poder oculto, desenvolver e ressuscitar a vida". Isto implica que todas as leis universais, todos os fenômenos e todos os dharmas (religiões ou ensinamentos), todos os deuses de todos os ensinos desde a antiguidade, têm sua origem no "Uno", uma única Lei ou Realidade, que é "encapsulada" nestas duas palavras: “Myo ho: 妙法



“Ren: ” é o lótus e “Ge: ” significa flor. Então, “Renge: 蓮華” é a flor de lótus. O simbolismo da flor de lótus é extremamente belo. Esta flor nasce nos pântanos e no lodo, mas no entanto ela floresce muito linda e limpa e pura. Jamais manchada pela cor da lama, ela permanece sempre branca. Mesmo quando o pântano se torna mais lamacento, o lótus floresce ainda mais flores brancas. Este é o símbolo para a natureza do esforço humano e do poder da salvação trazido pelo Sutra do Lótus. O pântano pode ser entendido como uma sociedade degenerada e decadente, ou uma mente deturpada por baixos pensamentos e desejos. A flor branca e pura é o símbolo para iluminação. Ou seja, embora este mundo seja ainda imperfeito, a iluminação do Sutra de Lótus é capaz de nos fazer perceber a beleza em todas as coisas, em seu lento progresso em direção ao mais alto, e também nos permite transformar ou alquimizar a realidade de modo a transformar este mundo numa terra pura de Buda, não só em conceito, mas também factualmente.

O lótus representa o maravilhoso ensino do Sutra de Lótus... E este é que, longe de sermos separados da Realidade Suprema ou de "Deus" ou da natureza de Buda, nós, mesmo com todos os nossos defeitos, possuímos a maravilhosa natureza Búdica. Filho de peixe, peixinho é... A maioria das plantas dão semente após desabrocharem, mas o lótus já semeou quando a flor desabrocha. O símbolo aqui é o de que os humanos já nascem com a semente da natureza de Buda, e por possuírmos esta semente, este "DNA" do Buda, poderemos eventualmente atingir uma condição de iluminação semelhante à de um Buda.

A ser continuado...

Gasho